A nova rotina nas lojas no coronavírus

A nova rotina nas lojas no coronavírus


No dia 23/03, Michael Hancock, prefeito de Denver, anunciou o fechamento dos dispensários.

29/03/2020
Por Renita Lopeski, de Denver

Na segunda-feira 23 de março por volta do meio dia, Michael Hancock, prefeito de Denver reeleito ano passado, anunciou que tudo teria que fechar na cidade a partir de terça às 17h e permanecer fechado até 11 de abril, inclusive lojas de bebidas e de cannabis (exceto medicinal). Por volta da 13h tinha vinte pessoas na porta do dispensário onde eu trabalho. Às 14h, já eram quase cem na fila que contornava a esquina. Denver não tolera ficar em casa sem fumar e sem beber (bares e restaurantes estão fechados desde 17 de março). Mas tudo que não podia acontecer neste exato momento de pandemia era uma aglomeração. Obrigada, prefeito!  Pra quem não vota, fica aí registrado um exemplo de como a política pode prejudicar a sua vida. Uma atitude totalmente irresponsável quando o governador já havia declarado que dispensários de Cannabis são essenciais e devem permanecer abertos.

Como consequência, naquela segunda-feira, 23, as vendas aumentaram impressionantes 392%. Foi um dia de caos. Atendi cliente chorando, cliente emputecido porque a gente perdeu o pedido dele, cliente reclamando, cliente sendo cliente, enquanto outros, aqueles que realmente estimulam esta linda indústria, pingavam notas de 20 dólares agradecendo por a gente estar trabalhando e por eles terem a oportunidade de pegarem uma onça para garantir sanidade nos próximos dias. Como já estávamos estimulando os pedidos online nos últimos dias para diminuir o tempo de permanência na loja, lá pelas 4h da tarde somavam mais de 200 pedidos na loja aguardando os donos e mais e mais pedidos não paravam de chegar, tanto que a máquina de imprimir pedidos, coitada, não deu conta, porque nunca ninguém tinha visto o apocalipse antes num dispensário no Colorado como foi nesta segunda feira. Gente que trabalha no setor há 8 anos disse não ver nada parecido desde 2014. 

Vendo a merda que fez, porque tinha fila em TODAS as lojas de bebida da cidade e em todos os dispensários, o prefeito voltou atrás e anunciou lá pelas 5h da tarde que liquor store e dispensary podiam continuar abertos normalmente. E ainda autorizou a entrega na calçada. Muita gente nem veio buscar o pedido porque ouviu a notícia de que iríamos permanecer abertos, mas ainda assim foi um dia super movimentado, muita gente circulando dentro da loja, um caos totalmente desnecessário. 

Como essa indústria é acima de tudo dinâmica, no dia seguinte mudou tudo e agora clientes não entram mais no dispensary, apenas nós que trabalhamos lá. O cliente faz o pedido online pelo site e quando chega na loja estaciona e espera ser atendido dentro do carro. Nós, os budtenders que agora trabalham de luvas e sanitizam as luvas após cada transação, vamos até o carro com uma cestinha e pela janela, igual no drive-thru, recolhemos identidade e dinheiro tentando manter 1,5 metro de distância, voltamos pra loja e procedemos a transação lá dentro como se o cliente estivesse lá. Se não tiver feito o pedido, a gente tem menu e pode tirar na hora, mas vamos evitar ficar muito tempo em contato? Internet salva vidas! No fim, levamos o pedido para a pessoa, sem ela sair do carro e depois, spray de álcool isopropílico na cestinha, menus e nas luvas. Quem chega a pé ou de bike espera em frente à porta, a um metro e meio de distância e acontece o mesmo procedimento. E também mudamos o horário, em vez de fechar às 22h, agora fechamos às 20h.

E foi assim que em março de 2020 o Colorado viu a entrega de Cannabis acontecer nas calçadas de Denver, como nos antigos tempos de mercado ilegal. Aguardando para contar as próximas mudanças, porque já tinham me falado, mas agora eu posso ver: a coisa muda rápido na indústria da Cannabis.