A rotina de budtender e o coronavírus

A rotina de budtender e o coronavírus


Budtender é que nem bartender, o cara que te serve o drink no bar, no caso te serve cannabis.

Renita Lopeski, de Denver

Budtender é que nem bartender, o cara que te serve o drink no bar, é o cara que te serve cannabis e produtos derivados no dispensário. No caso aqui, a mina. Na última semana o trabalho se intensificou, mas minha rotina não mudou em nada. Continuo indo trabalhar todos os dias, porque Cannabis, no estado do Colorado, é considerada item essencial para sobrevivência, assim como comida e remédio, então os dispensários não vão fechar as portas. E a gente segue firme e forte no arroz, feijão e ganja, agora com luvas e mantendo distância das pessoas.

No meu dispensário que não é meu, eu só trabalho lá há 2 meses, a gente chega às 7h da manhã pra montar a loja, porque durante a noite todos os produtos ficam lacrados no cofre. Limpamos o chão, as bancadas de vidro e os computadores e penduramos na parede todos os produtos. Atualizamos os menus dos dois lados da loja, o recreativo e o médico, e pontualmente às 8h a porta abre - exceto aos domingos que abre às 9h. Só fechamos 4 dias por ano: dia de natal, ano novo, thanksgiving e 4 de julho.

Geralmente já abre com fila na porta, porque é happy hour das 8h às 9h, com preços promocionais para quem quer pagar menos. O cliente entra, apresenta o documento para o segurança que checa a veracidade, validade e a idade - é necessário ser maior de 21 anos - o cliente então aguarda ser chamado na fila, se apresenta ao budtender com a identidade novamente, e aí segue-se uma venda normal. Quem sabe o que quer já pede seus produtos na quantidade que deseja, eu pego, escaneio, ele paga e vai embora com o saquinho, a nota fiscal e o sorriso de satisfação ao comprar cannabis legalizada pagando imposto que vai pra educação.

Já quando o cliente não sabe bem o que está buscando, dá um pouco mais de trabalho, mas estamos ali para ajudar. Um bom budtender começa perguntando o quão familiar você é com cannabis, para saber o nível de expertise do cliente, e segue oferecendo produtos condizentes com o que o se está buscando, mostrando os buds nas jarras e explicando a diferença entre as strains e os demais produtos de interesse. Até a semana passada a gente tinha umas 20 jarras de vidro iluminadas com LED e uma lente de aumento na tampa pro cliente poder ver os buds de cada strain e até sentir o cheiro, mas como medida de prevenção ao coronavírus, a partir dessa semana não temos mais. Nenhum container pode ser aberto em nenhuma hipótese dentro da loja anymore. Além disso, estamos usando luvas e higienizando as mãos após cada transação, mas ainda somos uma loja que aceita apenas dinheiro. Também estamos limpando mais constantemente as bancadas, caixa eletrônico e as maçanetas de todas as portas e estimulando os pedidos online (o que não ajuda muito, porque o cliente ainda precisa ir até lá para pagar, mas fica menos tempo na loja).

E assim passam rápido as 8 horas, entra um, sai outro, às vezes com fila no lobby, às vezes sem fila alguma, essa semana especialmente com fila o tempo todo. Por sorte, a loja controla bem seu estoque e temos produtos todos os dias. A gente fecha às 9h50 da noite, desmonta tudo, põe de volta no cofre e consegue ir embora até as 11h. É um trabalho divertido, com música o tempo todo, e cansativo, em pé, com foco e velocidade. Neste momento, sou grata por ainda ter emprego, e estou preocupada porque estou sendo provavelmente exposta ao vírus, diariamente.

Caso venha nos visitar, quando for permitido viajar novamente, estamos aqui trabalhando porque somos profissionais da saúde e entendemos que neste momento delicado em que todos estão em casa, é preciso continuar dando acesso às pessoas à cannabis. Mas deixa te contar que estamos ganhando salário mínimo, então, se você foi bem atendido, te explicaram tudo que você queria saber e você saiu satisfeito da loja, dê uma boa gorjeta ao seu budtender! Igual no restaurante! A gente vive disso!